Perda de peso: os riscos, métodos e diferentes opiniões de especialistas

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Cansado de sofrer, Minotouro segue procedimento mais leve desde 2011. Preparador físico defende técnica, mas admite mal à saúde do atleta

Considerado o maior adversário dos atletas de artes marciais, a perda de peso é uma constante para quem vive da luta, principalmente aqueles do MMA. A tradicional pesagem, que antecede o combate, é precedida por momentos difíceis e muitas vezes perigosos. Antes de encarar a balança e entrar no octógono, muitos lutadores chegam a cortar até 20kg. Método que envolve riscos, práticas e opiniões diferentes.

– Se você perguntar para um atleta desses, dez dias antes da luta, qual a principal preocupação que ele tem, é a perda de peso, não é mais a luta – admite o farmacêutico Rodrigo Abdala, que atende o meio-pesado do UFC Rogério Minotouro.

minotouro-nogueira1A perda dos quilos é comum para atletas que precisam estar no limite exigido pela categoria em que compete. Um hábito dentro do esporte que divide atletas segundo o peso. Muitos lutadores, porém, usam a tática de atuar em divisões menores, eliminando o máximo possível de massa antes da pesagem e ganhando-a novamente em um curto espaço de tempo – tudo para estarem mais pesados que o oponente no dia decisivo.

– Eu me senti mal porque foi um desgaste muito grande. O corpo já fraco, e eu ainda perdi 2,2 kilos oito horas antes, limitou. Fui ao limite mesmo. Não conseguia andar, não conseguia falar. Eu estava seco, oco por dentro – relembra Júnior Abedi, peso mosca do Jungle Fight.

Abedi entrou para a estatística dos lutadores que acabaram perdendo a luta para a perda de peso. Na pesagem do Jungle Fight 44, em outubro, o carioca precisou ser carregado depois de ficar mais de 20 horas sem se alimentar para bater os 57 quilos de sua divisão.

No Ultimate, o exemplo fica com o americano Nick Ring. Ele bateu 84 quilos no dia da pesagem do UFC 154 e fez até pose para o confronto contra Costa Philipou. Mas o lutador não se recuperou da perda de peso e o combate foi cancelado.

– A diferença física é notável, você desidrata o atleta, você consegue ver todas as veias do corpo, o rosto afina, ele fica mais fraco, é uma agressão ao corpo – diz Sérgio Cunha, treinador de Muay Thai.

Por não existir milagre para se perder tanto peso em tão pouco tempo, os atletas mudam radicalmente a alimentação e desidratam o corpo, atravé de sessões de sauna e pesado exercício na academia. Vinte e quatro horas antes da pesagem, que acontece um dia antes da luta no UFC, eles cortam todo tipo de líquido. Com esse processo, perdem mais do que peso. A falta de água no organismo pode aumentar os riscos de lesão, diminuir as defesas naturais do corpo e, nos casos mais graves, levar à uma reação chamada hipernatremia, que é o excesso de sódio no corpo. A hipernatremia pode causar confusão mental e até a morte.

– Tira a explosão, o gás, velocidade, que é a principal habilidade do lutador. Tem que ser veloz para fazer o golpe, e o cara não ver, para conseguir fazer o golpe com força – explica Rogério Minotouro.

O peso-meio-pesado do UFC cansou dos efeitos negativos causados pela desidratação brusca e proposital. Em 2011, Minotouro começou uma nova estratégia para controlar o peso de forma gradual e acompanhada.

– O acompanhamento é feito diariamente. Você dá respostas sobre os efeitos, se ainda está sentindo cansaço, como está a dieta, se está sentindo fome, se está com fome o que faz para segurar a dieta. Eles tiram sangue, te dizem as vitaminas que o seu corpo precisa, se você pode tomar alguma vitamina para prevenir aquele tipo de lesão – diz o lutador.

A primeira luta de Minotouro depois do início do tratamento foi contra o norte-americano Tito Ortiz, em dezembro de 2011. O baiano venceu ainda no primeiro round. Hoje, entre os 70 atletas do Team Nogueira, equipe liderada por Minotouro e seu irmão, Rodrigo Minotauro, dez estão seguindo o exemplo.

– A gente quer que ele se recupere bem das lutas e tenha uma qualidade de vida melhor, que a gente consiga com a suplementação, diminuir o risco de lesão, aumentar a longevidade no esporte. Eu não posso dizer que, com a suplementação, vou prolongar a vida dele, mas eu vou melhorar a qualidade de vida – explica Abdala.

– É difícil eles largarem os conceitos antigos, mas eles estão sentindo os resultados na própria pele, na própria luta, rendimento e recuperação – emenda a médica ortomolecular Janaína Barboza.

O próximo desafio de Minotouro será em fevereiro, contra Rashad Evans – nova oportunidade para comprovar os benefícios da perda de peso gradual e supervisionada.

– Eu testei, tem dado certo e eu vou continuar fazendo esse trabalho, porque as pessoas tem que ver não só no momento da luta. Tem que ver além da luta. Tem também o futuro da carreira do atleta – diz o lutador.

Preparador físico defende desidratação

André Benkei é a favor da desidratação, mas admite mal à saúde da prática
André Benkei é a favor da desidratação, mas admite
mal à saúde da prática

O preparador físico André Benkei ganhou fama no MMA e o apelido “Mago da Balança” por ajudar lutadores a perder até 13kg antes da luta e recuperá-los a tempo de entrar no octógno. Ele é claro ao afirmar que a perda de peso é restrito a profissionais e admite que é preciso sacrificar o corpo para ter maior probailidade de sucesso na arena.

– Eu consigo fazer com que eles lutem em uma categoria abaixo, o que dá vantagem de força, explosão. Não é para pessoas normais, é para atleta de ponta. Em todo o esporte de alto nível, isso não significa saúde – diz.

Segundo Benkei, a quantidade de gordura no corpo influencia a capacidade do atleta de perder líquidos.

– Acima de 10% será sempre um problema. Isso porque 75% do músculo é água, enquanto na gordura é 25%. Se você dificulta o processo, ele desgasta e na hora da luta rende menos – diz o preparador.

– Sei que tem pessoas que não tomam muito cuidado, o que é muito agressivo. Tem atleta que passa muito mal. Eu só tive problemas com atletas meus que não foram disciplinados o suficiente.

A chave de todo o sucesso é a reidratação, o processo que se segue após a pesagem. Sobre esta parte de seu método, Benkei prefere guardá-lo em segredo.

– É uma arma a mais que a gente tem – diz.

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